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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Experiências #15

10 julho 2010

Tomás fita melancolicamente a data gravada na aliança ao mesmo tempo que a acaricia suavemente. Nunca deixara de a usar, nem nunca tal lhe passara pela cabeça. Vai girando o anel dourado, já baço em algumas áreas, detendo-se a fixar o nome gravado no lado oposto à data: Carolina Holster.

Por um segundo, Tomás já não está sentado num banco de jardim, desfrutando da sua pausa da manhã: está no Alentejo, na Holster Village, num final de noite quente. O fotógrafo insistira para que saíssem da festa durante uns minutos a fim de os retratar sozinhos no amplo jardim, pelo que lhe fizeram a vontade acabando por demorar mais do que previram. De volta à festa, uma Carolina apressada puxava-o pela mão, numa corrida quase infantil. Que diabos! A festa não era deles? Não se podiam demorar um bocadinho mais? Tomás deixava-se arrastar pela esposa entusiasmada, enquanto a apreciava. Alguns caracóis mais rebeldes desprenderam-se do apanhado, roçando-lhe pelos ombros ou saltitando ao ritmo do seu passo ligeiro. O vestido de cetim branco deixa-lhe as costas desnudas, num V que tem tanto de encantador como de provocador, com o tecido da saia a ajustar-se perfeitamente às suas ancas, como se de uma segunda pele se tratasse, salientado as suas curvas e incitando à imaginação das pernas que se escondiam por baixo do tecido fino e ligeiramente travado. A mão livre puxava a saia do vestido para cima para dar mais liberdade à passada, expondo a pele perfeita e cálida dos tornozelos. Estava perfeita. Da tenda gigante chegavam os acordes de Chasing Cars, quando Tomás a puxou delicadamente para si, provocando um rodopio de caracóis ruivos e um riso infantil contagiante.

- Estás linda! – Declarou enquanto a abraçava pela cintura, acariciando a pele suave e exposta das suas costas.

- Estás a tornar-te lamechas, Tomás? – Gracejou Carolina ajeitando-lhe a gravata e puxando-o pela lapela do casaco.

Inspirou profundamente e quase que a conseguia sentir novamente, o calor do seu corpo no seu abraço, o seu cheiro floral e requintado, a maciez da sua pele. Forçou a mente a voltar à realidade, devolvendo-a à gaveta dos momentos felizes. Não teria novamente momentos daqueles ou pelo menos não tão cedo e não com Carolina. Definitivamente, não teria uma segunda oportunidade com ela. Ou teria? Conseguiria de alguma forma compensar o passado? Não o esquecendo para não voltar a cair no mesmo erro, mas compensando-o? Tornando o presente melhor, vivendo mais com a sua família a para ela? E se tentasse? Seria um longo caminho, sem dúvida, mas já fizera grande parte do percurso sozinho, reconstruindo-se e voltando aos poucos à vida normal. Porque não telefonar-lhe? Convida-la para um café ou para um pequeno passeio. Começar do zero, conhecendo-se novamente, sem pressas e sem as loucuras de anos idos.

Olhou de relance para o mostrador do relógio de pulso constando tinha quatro minutos para dar a pausa como terminada. Felizmente, a distância que o separava do supermercado era curta, somente a estrada que o separava do pequeno jardim urbano onde se encontrava. Caminhou até à passadeira aguardando o aval verde do semáforo. Um carro abrandou a marcha parando ao sinal vermelho. Dentro dele ecoava Chasing Cars e Tomás deu consigo a sorrir pela coincidência enquanto devolvia a aliança ao sítio onde pertencia. O peão iluminou-se de verde E Tomás caminhou confiante para o supermercado, com uma esperança que há muito não tinha e ignorando o calafria que lhe percorreu o corpo quando ouviu o grito agudo de uma ambulância apressada, segundos depois de ter atravessado a rua. 

Experiências #13

Maria estava uma crescida do alto dos seus seis anos. A sua vida mudara radicalmente nos últimos 10 meses, mas isso não a impedira de obter bons resultados no primeiro período escolar. Aprendia rapidamente e devorava a informação que a professora debitava na sala de aula. Preferia os lápis às bonecas de outrora e os conjuntos de loiça pequenina foram substituídos por livros com pequenas histórias de fácil leitura. Gostava de ler alto e com um público de bonecos bem alinhado e atento, não gostava que a interrompessem e era por isso que preferia um público inanimado a um público vivo – os adultos à vezes esquecem-se que para aprender também é preciso errar, passam a vida a corrigir pequenas falhas e estão sempre cheios de pressa: ou têm que fazer o jantar ou preparar alguma coisa que não pode esperar.

 

Nesses momentos tinha saudades do pai. Passava mais tempo fora de casa que dentro dela é certo, mas quando lá estava e lhe dedicava tempo não havia mais nada. Era sempre ela a comandar a brincadeira e o pai vestia a pele daquilo que lhe pedia. Se fosse público, escutava com atenção, sem interromper. Se fosse parte do espectáculo, encarnava a personagem com rigor. Chegou a ser modelo e cobaia da sua manicure desajeitada. Podiam ser 20 ou 30 minutos, mas naquele tempo só eles existiam e isso valia por todas as outras horas.

 

Tinha saudades do pai.

 

A mãe e os avós garantiam-lhe que ele haveria de recuperar, mas Maria não percebia do quê. O pai nunca lhe parecera doente. Se calhar era por causa das discussões com a mãe, a avó dizia que ralhar dava-lhe cabo dos nervos e na volta o pai ficara com os nervos avariados. Desejava que melhorasse depressa, queria brincar de novo com ele e não apenas ter uma conversa de circunstância na hora da visita estipulada. Queria mostrar-lhe que já sabia ler e que o fazia cada vez mais rápido e melhor. Queria desenhar e pintar com ele e brincar como antes.

 

Concentrada e compenetrada em melhorar para dar o seu melhor quando estivessem de novo juntos, Maria retomou a leitura para o público mudo, ansiando o dia em que o pai faria de novo parte dele.

 

Texto original da minha autoria

 

* * * 

 

 

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Experiências #12

- Bom dia Sr. Ventura. Já ligou a máquina do café?

- Olá bom dia Carolina. Já sim. Pode ir tomar o seu cafézinho.

- Obrigado.

Carolina dirige-se à copa, tira um café e aguarda pacientemente que o estagiário lhe traga o o resumo das informações que lhe pediu.

- Então, que novidades tens para mim?

- Carolina, fico muito feliz por lhe dizer que não, o seu marido não a anda a trair. Esta semana, não fez uma única chamada que não fosse de trabalho ou para si. Nem para os pais dele telefonou. O telemóvel dele nunca esteve numa zona que não fosse a vossa casa ou o escritório. O histórico de internet não revela nenhum site esquisito e nem as pesquisas no Google por mulheres foram relevantes. Pesquisou oitenta e três vezes pela advogada do processo do clube de futebol e cento e vinte e nove vezes pela procuradora do Ministério Público do processo da lavagem de dinheiro.

- De certeza? Ele não me está a enganar?

- Carolina, andamos nisto há dois meses. Todos os dias passo horas intermináveis ao frio apenas para ver o seu marido a sair do escritório sozinho com um ar alheado, entrar no carro, conduzir até sua casa, depois vou para casa, faço o que me pediu, espio-o, acedo inclusivamente à webcam para o ver a trabalhar como um condenado. Sabia que, cada vez que ele pega numa caneta para tirar um apontamento, ele pega nas outras oito canetas que tem na secretária e arruma-as, uma por uma? São nove canetas. Todas de cores diferentes. E ele arruma-as todas da mesma maneira, sempre na mesma ordem. Sempre. E eu já sei a ordem das canetas todas. Azul, preta, vermelha, amarela, verde, laranja, rosa, castanha e corrector. Sempre na mesma ordem. Sempre com o bico virado para a impressora. Sabia que sempre que o seu marido liga o computador, ele abre a gaveta da direita, retira um bloco A4, escreve a data no campo superior direito com a caneta preta, pega nas nove canetas, arruma-as uma por uma, insere a password no computador, que é a data do vosso casamento e o nome da vossa filha em letras minuscúlas, entra no google, escreve o nome de alguém, tira uma nota com a caneta azul, pega nas nove canetas, arruma-as uma por uma…

- Já percebi, já percebi. O meu marido tem manias. Portanto, estás a garantir-me que o ele não anda a trair-me nem anda em chats nem em Tinders nem o raio que o parta.

- Nada Carolina. Nem uma aplicação, nem um Facebook, nem um Instagram, nem um Twitter. Na-da.

- Obrigado Sérgio. Muito obrigado. Não me esqueci do nosso acordo. Amanhã, supostamente, saio às três da tarde. Vou ficar a fazer horas extra no gabinete do Director de Programação, que vai estar toda a tarde em reuião com a Direcção de Conteúdos e a Direcção de Publicidade. A partir das três, podes ligar-me para confirmar se já lá estou para te mostrar o que é que eu faço no programa da Judite. Agora tenho de ir preparar o programa da manhã.

Carolina dirige-se à secretária e liga para Sofia, para mais uma vez desabafar que está enganada, mas a sua amiga, desde que se enrolou com o jogador de futebol, nunca mais lhe atendeu as chamadas durante o horário de expediente. Em desespero, faz uma coisa que não lhe é habitual. Liga para o seu marido. Ao fim de dois toques, uma voz entre o surpreendida e o assustada atende o telefone.

- Estou? Carolina? Está tudo bem? Algum problema com a Maria?

- Olá Tomás. Está tudo bem com a Maria, sim. Não te preocupes.

- Estás a ligar-me. Que se passa?

- Preciso de falar contigo.

- Isso é óbvio, para me estares a ligar durante o dia, em horário de trabalho. Tenho uma reunião importante com um cliente novo daqui a cinco minutos. Mas posso adiar um bocadinho, por ti. Que se passa?

- Não quero falar por telefone. Podemos almoçar hoje?

- Almoçar? Mas não estás a trabalhar na hora do almoço?

- Sim, mas saio mais cedo, vou ter contigo e vamos àquele restaurante japonês no Campo Pequeno. Às duas? Por favor?

- Er… Às duas? Pode ser, sim. Eu falo com o Paiva e almoço contigo. Deixa-me só bloquear a agenda, para a Milene não marcar nada. Uma hora chega? Duas? Mais que isso não consigo.

- Duas. Obrigada Tomás. Desculpa estar a ocupar tanto tempo num dia de trabalho.

- Carolina, estás a gozar certo? Tu és a minha mulher. Para ti arranjo sempre tempo.

- Obrigado. Amo-te!

- Eu também te amo, leoazinha do meu coração. Até logo, às duas.

Carolina desliga o telefone e tenta recordar-se da última vez que tinha, num dia de semana, falado tanto tempo seguido com o marido. E não se recorda. Com lágrimas nos olhos, levanta-se, vai à casa de banho e senta-se numa cabine a respirar fundo, a tentar não esborratar a maquilhagem com as lágrimas que teimosamente afloravam aos seus olhos verdes. Quem estaria mais maluco? Ele? Ou ela?

 

* * *

Texto original de Mário Pereira

 

 

Experiências #11

Lisboa ainda dormia quando Tomás saiu de casa. Há muito que se habituara a esta rotina de começar o dia muito antes dos comuns mortais.

Não fora isto que idealizara para si, para a sua vida, mas neste momento agradecia todos os dias o que conseguira conquistar nos últimos quatro meses. Arranjara um emprego como repositor num supermercado local, o tipo de trabalho que qualquer pessoa é capaz de fazer, simples, rotineiro e com poucas ou nenhumas habilitações. Aprendera a fazê-lo com gosto, era um homem metódico, rápido e eficiente. Falava pouco e regra geral, o trabalho servia como escape às memórias que lhe assombravam à mente sem autorização prévia. Enquanto repunha os produtos nas prateleiras, não pensava no resto e isso era parte importante da sua terapia.

Há meio ano caíra desamparado e batera bem no fundo do poço. Perdera o emprego, ninguém empregava alguém com distúrbios psiquiátricos que, para além de recusar ajuda médica, ainda emborcava uns whiskys pela noite fora. Não raras vezes apresentou-se no escritório perto da hora de almoço exactamente com a mesma roupa do dia anterior, deixando um odor pestilento e nauseabundo atrás de si. Numa dessas manhãs, o chefe apresentou-lhe um ultimato: ou resolvia o problema ou era demitido no prazo de uma semana. Saiu no próprio dia, dono do seu nariz, senhor da sua razão, por semelhante ultraje à sua pessoa. Não tinha nada para resolver, estava apenas em baixo dada a frágil situação familiar em que se encontrava. Como poderia alguém ser tão insensível a isso? Sempre julgara o chefe como um amigo e ficou verdadeiramente magoado naquele dia. Agora, com a devida distância temporal, questionava-se como o tinham suportado tanto tempo. Fora um advogado brilhante, ganhara inúmeros casos em que o tamanho do imbróglio era descomunal. A sala de audiências foi o seu palco e Tomás bailou nela o melhor que soube, até que caíu na espiral vertiginosa que o levou à ruína.

A par do desemprego, seguiu-se o afastamento dos amigos. Uns mais tarde que outros todos deixaram de lhe ligar, de perguntar, de se importar. Não os julgava, faria exactamente o mesmo. Não há cego pior que aquele que não quer ver e Tomás tornou-se permanentemente cego.

Até ao dia em que a filha não o reconheceu.

Sentia saudades da pequena, de a ter aninhada no colo, do cheiro do seu cabelo, da sua vozinha fininha e da excitação frenética com que o recebia quando chegava à casa. Decidiu passar pelo colégio. Não se aproximaria muito, já que Carolina fora peremptória na última discussão sobre o assunto: não se aproximaria da miúda sem o seu consentimento e sem que ela ou os pais dela estivessem presentes. Quando chegou ao colégio, deparou-se com os miúdos a saírem desordenadamente de um autocarro. Tinham ido a uma visita de estudo e vinham excitadíssimos, correndo desenfreadamente, apesar dos sucessivos avisos das educadoras. Foi mais forte que ele. Aproximou-se devagar, simulando a casualidade de uma caminhada, fazendo um pequeno desvio para que o seu percurso se cruzasse com o da menina de cabelos ruivos esvoaçantes, tal como a sua mãe.

- Olá! Como estás? – perguntou agachando-se para ficarem ao mesmo nível.

Uns pequenos olhos castanhos, profundos e escuros, pousaram nele com perplexidade.

- Olá Maria! Estás tão bonita… Não me dizes “olá”? – ergueu a mão para lhe afagar o cabelo, mas logo a deixou descair quando a menina se retraiu.

Tomás viu o medo espelhado nos olhos dela, mas nada o preparava para o seguinte:

- Desculpe, mas tenho de ir embora. A minha mamã diz que é perigoso falar com estranhos.

Numa pequena corrida, Maria colocou-se entre o grupo de crianças que entrava desordenadamente para o colégio. Uma das professoras deitou-lhe um olhar algo desdenhoso, num misto de receio com piedade.

Sentiu o nó na garganta e tentou engolir as lágrimas que lhe bailavam nos olhos, sem qualquer sucesso. Ergueu-se, lutando contra a vontade de ficar ali deitado, chorando no chão de alcatrão. Quando se preparava para prosseguir a marcha, deu com um pequeno papel amarfanhado no fundo do bolso das calças. Rabiscado por Carolina o post it amarelo continha o dia e a hora da consulta psiquiátrica com o dr. Henrique, mas mais importante e onde Tomás focou longamente a atenção: o telefone de contacto do médico.

 

Texto original da minha autoria. 

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Experiências #10

- Olá boa noite

- C… C… Carolina! Olá! Boa noite, por aqui?

- Sim, vim cá com uma amiga, mas não sei dela e não tenho com quem falar. Posso sentar-me?

- Sim… Acho que sim… Quer dizer, claro que sim, se acha que… Quer dizer, claro, quer ficar aqui no sofá, que é mais confortável?

- Estou bem, obrigado. Não precisa de ficar nervoso. Já percebi que é uma pessoa tímida, mas eu não mordo.

- É que… fui apanhado desprevenido, não esperava que viesse falar comigo…

- Porquê?

- Porque a Carolina não me conhece, não somos amigos…

- Vamos tratar disso então. Fala-me de ti.

- Eu? Então… Er… O que quer saber?

- O teu nome, para começar.

- Sérgio. O meu nome é Sérgio Ventura.

- Boa! Olá Sérgio. Carolina Carvalho. O trabalho como estagiário no Canal é o teu primeiro?

- Não. Mas é o primeiro na área. Sou licenciado em Audiovisuais e Multimédia, mas até agora só arranjei trabalho em call centers, como caixa de supermercado e em cafés. Nem na FNAC.

- Há quanto tempo estás no Canal?

- Três semanas.

- E o que queres fazer? Quais são as tuas ambições para este emprego?

- Tenho um contrato de seis meses. O que eu queria mesmo era, daqui a uns tempos, estar a fazer o mesmo que a Carolina com o programa da Judite. É exactamente esse o meu objectivo a curto prazo.

- E se eu te ajudar a chegar lá?

- C… Como? Como assim?

- Se eu te ensinar, pouco e pouco, a coordenar o programa da Judite? E um dia mais tarde, se abrir alguma vaga para esse programa ou para outro, já tens alguma experiência, não tens de aprender tudo do zero.

- Uau! Mas isso era óptimo. Claro que sim, oh meu Deus! O que é que eu tenho de fazer para isso acontecer?

- Podes começar por me dizer o que estás a beber para bebermos mais uma rodada

- Não, Carolina. Peço desculpa, mas eu é que faço questão de lhe pagar uma bebida. O que quer beber?

- Um whisky sem gelo e uma água com gás para acompanhar.

- Muito bem. Já venho. Muito obrigado Carolina, um dia que precise de algo, seja o que for, só se eu não puder é que não a ajudo.

Sérgio levanta-se, vai buscar as bebidas e passado poucos minutos está de volta.

- Ainda bem que disseste isso… Por acaso há algo que podes fazer por mim.

- Diga, Carolina.

- Preciso que sigas o meu marido.

- O… O… O quê?

- Preciso que sigas o meu marido. Ele é advogado e todos os dias chega  a casa quando a miúda já está a dormir e a maioria das vezes fica acordado a noite toda. Quero só ter a certeza de que ele não anda a trair-me. Assim, preciso que me confirmes isso. Achas que consegues?

- Sim, claro que consigo. É muito fácil. Hoje em dia já há aplicações no telemóvel para fazermos isso. Quer que lhe ensine?

- Não, não quero ser eu a fazê-lo. Não quero que ele pense que eu estou a desconfiar dele sem motivos. Se não quiseres, eu percebo. E a minha proposta mantém-se de pé. Eu continuo a ajudar-te. E temos de arranjar outra forma de me compensares…

- Não é preciso. Eu faço isso. Só preciso de algumas informações sobre ele.

- Tudo o que precisares. Sou a pessoa certa a quem pedir.

Então, o que eu vou precisar é…

 

Texto original de Mário Pereira

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Experiências #8

6:30 da manhã

Carolina liga a água para o seu duche matinal. Nas últimas três semanas, dormiu sozinha pelo menos três vezes por semana. Tomás prepara um julgamento importante e passa as noites em frente ao computador, a verificar detalhes sobre a defesa que tem montada. Uma vez e outra, relê os seus apontamentos e os seus processos. E ela prepara o jantar, mantém a casa habitável, preocupa-se com Maria, faz as compras online e recebe-as ao fim da tarde. O seu vibrador cor de rosa já não a satisfaz o suficiente. Precisa de toque. Despe-se e entra no duche. A água quente acalma-lhe os ímpetos e afasta-lhe os pensamentos pecaminosos. Toma um duche ligeiramente mais longo que o habitual enquanto revê o seu dia. Reunião às 10 da manhã com Luís e a direcção do canal. Às 11, o programa da Judite como habitualmente até ao início da tarde. Almoço na cantina do canal. A tarde ainda está liberta.

Vai à gaveta da lingerie especial. Hoje precisa de se sentir feminina e confiante. Escolhe um conjunto que comprou especalmente para o aniversário de casamento. Entra no closet e analisa as suas opções. Discreta, de cinzento? Não, hoje não. Arrojada, de preto e encarnado? Não, levou para a última reunião. Sexymas profissional, com a blusa laranja e a saia travada. É isso. O decote não é escandaloso, mas permite sonhar. Um colar que chame a atenção para aquela zona. O pendente comprido. Isso mesmo. E agora um casaco… O blazer sem botões. E os sapatos altos pretos. Perfeito.

Desce à cozinha, toma um pequeno almoço leve, apanha o elevador para a cave, entra no carro e conduz calmamente pelas ruas ainda semi-desertas. Às 7:30 estaciona o carro no lugar habitual e percorre o caminho até à sua secretária. Liga o computador e vai à copa preparar um café. Lá, Liga a máquina. Ser a primeira a chegar ao escritório tem vantagens, a copa está limpa só para mim, pensa distraídamente. Nesse momento, entra o estagiário, que a cumprimenta com um sorriso envergonhado. Responde educadamente enquanto a bebida fumegante sai da máquina. Pelo canto do olho, repara que o estagiário olha furtivamente para ela e sorri interiormente. Sabe-lhe bem saber o efeito que tem nos homens. E o puto não é assim tão feio, pensa para com os seus botões. Baixa-se para colocar o copo de papel no lixo e repara que ele lhe olha pelo decote. Demora-se um microssegundo a mais e afasta-se com um sorriso na cara.

A reunião é um pequeno sucesso, pois consegue argumentar com clareza e no fim ouve elogios à sua capacidade de trabalho e apresentação. Luís não tirou os olhos do seu peito, o que significa que a roupa foi adequadamente escolhida. Ao almoço, revê o programa da Judite e encontra um pequeno ponto a corrigir no dia seguinte. Propõe a Judite a alteração ao início da tarde na sala de visionamento e recebe mais um elogio à proactividade. À saída, antes das quatro horas, cruza-se com o estagiário e oferece-lhe um sorriso e um “até amanhã à mesma hora” que provocando um rubor intenso na cara. No ginásio, percorre o circuito de cardio sem se preocupar com a habitual trupe de gorilas a mirar-lhe o rabo enquanto corre na passadeira e faz elíptica. Chega a casa ainda antes das 18h com a sua filha, recebe as compras do Continente, veste roupa confortável, prepara um jantar leve para as duas e senta-se no sofá a brincar com a filha.

Às nove da noite chega Tomás, distante como sempre. Dá-lhe um beijo rápido nos lábios, informa que já jantou e recolhe ao seu escritório. Carolina deita Maria, pega no telefone e liga para Sofia. A amiga atende meio chorosa, tinha tido uma discussão com  o Manel e ele tinha ido para casa dele. Volta a vestir-se e vai ter a casa de Sofia. Decidem ir a um bar para espairecer.

No bar, encontra um grupo de colegas de profissão e troca duas larachas com a pivô da noite, enquanto Sofia conversa animadamente com o ex-jogador de futebol que faz a secção desportiva. Cerca de uma hora depois, nem Sofia nem o futebolista estão no bar e ela fica sem saber muito bem o que fazer. Quando se dirige para a saída vê o estagiário numa mesa de canto agarrado ao telemóvel.

 

* * * 

Texto da autoria de Mário Pereira 

 

 

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Experiências #7

Subitamente, o gabinete pareceu-lhe demasiado pequeno. Sentiu-se claustrofóbico, agoniado e o chão parecia movimentar-se debaixo dos pés. O diagnóstico era claro: estava louco. Precisaria de acompanhamento e ficaria dependente das drogas psiquiátricas para o resto da vida. Nunca mais seria a mesma pessoa, perderia o emprego, a mulher e... Maria! Céus, como haveriam de dizer à menina que o seu pai estava mentalmente doente? Talvez Carolina até o proibisse de a ver, para segurança da pequena. Ninguém queria malucos por perto.

A voz grave do Dr Henrique, trouxe-o de volta à realidade. Sem se dar conta, já hiperventilava e transpirava em bica.

- Tomás, isto não é um drama. É perfeitamente possível viver pacífica e tranquilamente com esta condição, mantendo o acompanhamento psicológico com o dr. Gonçalves, fazendo avaliações comigo, regularmente, e algumas sessões de psicoterapia também o vão ajudar a controlar melhor esses impulsos.

- Mas quais impulsos?! Eu não faço nada de anormal, não ando por aí tapado só com uma gabardine a fazer rondas a escolas! - a voz saía-lhe mais fraca que o habitual. transtornada por aquilo que ouvira.

- A primeira coisa que fez, quando aqui chegou, foi alinhar o pisa papéis com o porta canetas, colocando a branca, na mesma posição das restantes, enquanto as contava para si. E mesmo não me falando sobre isso, quase aposto que contou o número de quadros que tenho na parede atrás de mim e que o seu desalinho propositado o incomoda.

Tomás olhou para ele, atónito. Reparara de, facto, nas dezassete molduras que enfeitavam a parede. Cinco grandes exibindo diplomas vários, sete médias com desenhos infantis, certamente deixados por crianças que frequentavam o gabinete e cinco com fotografias de pessoas felizes e sorridentes. Estavam colocadas ao acaso, sem qualquer tipo de ordem e algumas estavam inclusivamente pendidas, como se fossem cair a qualquer instante. Várias vezes refreou o desejo de as colocar alinhadas e direitas, como deviam estar.

O médico observou a interrogação que os olhos do paciente espelhavam. Desde que entrara, sorridente e confiante, haviam passado pouco mais de 10 minutos, Tomás impacientou-se com a posição do pisa-papéis E com um gesto descontraído, como se afastasse um pouco de pó da secretária, alinhou-o rapidamente com a porta canetas. Pedira-lhe para ver a branca, a única cujo bico apontava para o tecto e, após um milésimo de segundo a avaliar o objecto, colocou-a de novo no lugar, tendo o cuidado de colocar o bico em direcção ao chão e exactamente a meio das restantes. Não raras vezes, esfregara as mãos com nervosismo, enquanto fitava de soslaio a parede de molduras que adornavam o consultório.

O transtorno obsessivo-compulsivo era relativamente comum embora o mais frequente fossem impulsos ligados à limpeza e higienização de superfície ou até mesmo em questões de segurança, como o verificar diversas vezes o desligar de uma tomada ou uma porta bem trancada, também era usual existirem estes extremos de busca da perfeição aparente.

Prescreveu a dosagem adequada de clomipramina numa das suas receitas que entregou a Tomás. Recomendou-lhe nova consulta dentro de 15 dias, mas sabia que o mais certo era não ele não comparecer.

 

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- Como é que eu lido com aquele sacana?

- Amiga, sei lá, tu é que o conheces, não eu!

- Será que eu é o conheço? Começo a duvidar…

- Não sejas parva, Carolina. Ainda me lembro quando há me disseste que ias fisgar o advogado bonitão do Presidente do… Qual era o clube mesmo?

- Não me lembro, não é importante. Onde é que queres chegar?

- Onde eu quero chegar? Tu é que decidiste que o ias conquistar, tu é que lhe deste a nega durante meses, enquanto ele praticamente beijava o chão que pisavas, tu é que decidiste como, quando e onde se iam encontrar, tu é que decidiste se iam chegar a vias de facto na primeira noite ou não… Tu é que decidiste tudo na vossa relação. Tu é que és o motor lá de casa. Sem ti a miúda andava vestida com roupa da Primark e ele andava de Citröen Saxo azul cueca, fatos da Giovanni Galli e gravatas da Feira de Carcavelos. Se tu saíres da equação, ele pura e simplesmente torna-se incapaz de fazer algo que não seja relacionado com o Direito. E mesmo isso duvido. Ele venera-te, amiga. E aposto que se lhe pedires o divórcio, ele fica tão de rastos que nem discute e te dá tudo o que quiseres. Só tens que andar para a frente com o pedido…

- Olha querida, tenho que ir, isto de ser a primeira pessoa a quem o Director de Comunicação quer dar trabalho é muito bom, mas tem esta desvantagens. Falamos depois tá? Beijinho e obrigado.

- Beijinho, leoa. Gosto muito de ti, sabias?

- Sei. E eu de ti.

Carolina desliga o telefone, compõe o sofisticado tailleur, confirma que o decote está decente e levanta-se em direcção ao gabinete de Luís. Durante o percurso, pensa na conversa que acabara de ter com Sofia. Já há algum tempo que se questionava sobre o seu casamento. Por um lado, agradava-lhe a segurança de ter alguém quando chegava a casa, cansada de um dia de trabalho. Por outro, agradava-lhe a ideia de recomeçar de novo, escolher novamente um homem, transformá-lo num animal na área em que ele estivesse e claro, pelo caminho divertir-se um pouco com ele. Entra no gabinete de Luís e sorri profissionalmente. Luís levanta o olhar do ecrã do portátil e mira-a de cima abaixo, parando mais tempo do que o que devia no seu peito. Luís era um bom homem, felizmente casado e sem escândalos que se lhe conhecessem, mas tinha uma mente demasiado aberta no que à sexualidade dizia respeito. Não tinha qualquer pejo em mirá-la com ar guloso, de comentar quando ela trazia um conjunto mais arrojado ou de fazer um piropo ao seu rabo ou ao seu peito nas alturas mais desproporcionadas. Inclusivamente, tinha na sua posse registos de conversas privadas no chat da estação em que a linguagem dele resvalou, sem qualquer pejo, para conversas sexuais explícitas. Numa delas, perguntava abertamente quantas vezes por semana mantinha relações com Tomás e quantos orgasmos costumava ter em média. Perguntas às quais Carolina não respondeu directamente mas que a fizeram sorrir, na altura. Sabia que Luís era o seu chefe, mas acima de tudo era um amigo de longa data desde os tempos da faculdade, colega de carteira do irmão mais velho no mesmo colégio em que também ela estudou, o seu padrinho de casamento. Além disso, também foi o homem com quem manteve relações sexuais ocasionais em noites de maior solidão e menor predisposição para a utilização do vibrador. Era a ele a quem telefonava a pedir companhia antes de conhecer Tomás. A relação que mantinha com ele era extremamente profissional dentro do escritório perante os colegas mas, a dois dentro do gabinete ou na rua, era o outro homem perto de quem se sentia completamente à vontade. Era aquele a quem era capaz de dizer as maiores barbaridades e manter as conversas que não tinha em casa.

- Bom dia. Desculpa se demorei Luís, estava a conversar com a Sofia e já sabes como ela é, primeiro que se cale é um sarilho.

- Não tem mal, Carolina. Não tem mal. Bom dia. A Sofia, continua junta com aquele cromo do Manel?

- Sim, estão a pensar em ter filhos em breve.

- Que pena, um corpo daqueles não merece uma gravidez. Vai estragar aquelas mamas todas.

- Desculpa Luís, hoje estou com imenso trabalho por causa da reportagem da empresa da TV Cabo. Chamaste-me para me dizer algo importante?

- Claro claro, desculpa. Temos que marcar uma reunião com a chefia do Canal. Vai haver uma reestruturação e estou a apostar em ti para seres a nova face do telejornal do almoço. Mas para isso, tens de ser devidamente apresentada e vais ter que mostrar todos os teus dotes, que eles olham para ti de lado por eu ser amigo do teu irmão e teu padrinho de casamento. Quando é que te dá jeito para a semana?

- A sério? Eu? Obrigado Luís. Muito obrigado pela confiança. Escolhe tu o dia e a hora, desde que seja antes das onze ou depois da uma da tarde, porque esse é o intervalo em que tou a coordenar o programa da Judite, como sabes.

- De nada. Sabes que gosto muito da tua maneira de trabalhar e acho que tens futuro no canal. E sei que há outros canais de olho em ti para o mesmo espaço. Assim adianto-me a eles. E tu ficas aqui ao pé de mim, que comigo é que tu tás bem. Vou então tratar de tudo e depois digo-te OK?

- OK. Até logo.

Carolina vira costas, sai do gabinete de Luís e entra na casa de banho. Por um lado, apetece-lhe dar pulos de alegria pela promoção iminente. Por outro, apetece-lhe chorar porque vai ter menos tempo para lidar com os seus problemas familiares. Entra num cubículo e senta-se a pensar… “E agora, que raio vou fazer à minha vida?”

 

* * *

Texto da autoria de Mário Pereira.

 

Capítulos anteriores:

Experiências #5

Experiências #4

Experiências #3

Experiências #2

Experiências #1

 

Experiências #5

 

Quando é que a sua vida tinha ficado assim? Quando é que perdera o controlo da situação? Como é que se deixara afundar tanto? Questões que assomavam uma e outra vez à cabeça de Tomás, naquela manhã de segunda feira. Limitava-se a observar as pás da ventoinha que pairava no tecto, fazendo um esforço por não contar número de elos da corrente que o sustinha.

Não sabia quando começara. Talvez quando se empenhava demasiado no trabalho, verificando uma e outra vez todo o seu trabalho argumentativo, para que não existissem brechas que pusessem em causa o seu sucesso na sala de audiências. Ou quando saía em família e dava consigo a tentar descortinar o que pairava nas mentes dos que consigo se cruzavam, buscando olhares de interesse, fazendo leituras corporais que não existiam e divagando no obscuro da mente humana. Talvez quando se entretinha a arrumar a secretária numa tentativa de manter a ordem visível, por oposição ao caos que ia na sua cabeça, colocando as esferográficas todas no mesmo sentido e aparando o bico já afiado dos lápis. Talvez… Não valia a pena, fosse o que fosse que despoletara a situação, Tomás era única e exclusivamente o único culpado por deixar que o dominasse. Sabia que eram coisas da sua cabeça, sem sentido, sem fundamento, mas mesmo assim não se esforçara o suficiente por as inibir.

Quando o psicólogo clinico a que recorrera quase arrastado por Carolina depois de um ultimato amargo o viu, estranhou a sugestão para ser avaliado por um psiquiatra da sua confiança. Ainda ponderou não comparecer na consulta, não estava louco, estava apenas assoberbado em trabalho, stressado do corre-corre diário, enfim, era apenas mais uma entre tantas mentes cansadas e a precisar de férias. Não precisava do psiquiatra para nada, precisava de se meter num avião com destino a uma ilha paradísica e não fazer nenhum durante um mês. Era exactamente isso que o Dr. Henrique lhe diria e era exactamente isso que ia fazer, mal saísse do seu gabinete. Conversaria com a mulher, para que pudesse agilizar o trabalho na estação, trataria de passar todo o seu trabalho ao seu chefe, a miúda entraria entretanto em férias lectivas e teriam um mês sabático. Iria fazer-lhes bem e voltariam desta viagem ainda mais unidos e rejuvenescidos.

- Tomás Carvalho. – a voz rouca trouxe Tomás de volta à sala de espera e, entusiasmado com a perspectiva de umas férias a curto prazo, dirigiu-se para o gabinete luminoso onde um médico com ar experiente e algo austero aguardava a sua chegada.

Experiências #4

Apenas três anos antes, tudo corria sobre rodas. Tomás tornava-se cada vez mais importante na sociedade de advogados onde trabalhava, Carolina subia a pulso a escada do jornalismo, Maria crescia feliz e sadia, sem grandes sobressaltos que não a ocasional otite ou diarreia.A vida de casal ficava-lhes bem. Longos passeios ao fim de semana por Belém, Cascais ou Sintra, uma vida social recatada com poucos mas fiéis amigos, tanto do tempo da escola como provenientes dos diferentes ramos profissionais que ocupavam, jantares a dois em restaurantes intimistas, férias a três nas luxuosas propriedades construídas pelo avô, tudo lhes corria bem. A conta bancária engrossava na mesma medida do sucesso pelo que optaram por colocar Maria num dos melhores colégios privados de Lisboa, no Lumiar, a cinco minutos a pé de casa, um duplex de último andar num dos melhores condomínios da zona. O gabinete de Tomás e o escritório de Carolina situavam-se a dez minutos de carro e os seus horários permitiam fugir ao trânsito, uma vez que Carolina saía de casa bem cedo e Tomás apenas depois de levar Maria a pé ao colégio e tomar o pequeno almoço numa das muitas Padarias Portuguesas que pululavam pela capital. No entanto, uma sombra pairava naquele quadro pintado a cores tão alegres. Havia dias em que Tomás se alheava, fechava no escritório de casa e estudava até à exaustão os adversários que se lhe atravessavam na barra do tribunal. Sempre que se aproximava uma sessão importante, Tomás não raras vezes estava ainda ao computador quando Carolina estava a sair para o seu trabalho. Uma vez e outra, Carolina não questionava os métodos do seu amado esposo, no entanto essas noites em claro começaram a pesar no casamento. A falta de afecto do seu marido fez com que Carolina ficasse receosa de que algo não estava bem e a paranóia instalou-se. Não raras vezes ela perscrutava o telefone dele por sms ou chamadas de outras mulheres. A conta do Facebook estava constantemente aberta no iPad última geração, pelo que também lhe era fácil aceder-lhe. Começou a criar contas em sites de convívio, não com a intenção de trair o seu marido, mas apenas à procura dele. Não era possível que ele passasse doze horas a estudar o adversário pois não? Tinha que haver outra fêmea a querer apoderar-se do seu macho amado, aquele que tantas vezes não se parecia cansar do seu corpo mas que nos últimos tempos mal olhava para ela quando se despiam juntos antes de irem para a cama, nas raras noites em que iam juntos. E sexo... Tinha-o mais com o pequeno vibrador cor de rosa escondido na gaveta da lingerie "especial" que raramente usava do que com o marido e, mesmo quando o tinha, era ela quem quase tinha que o violar, pois ele andava distante e concentrado apenas no seu papel de rockstar dos tribunais.

 

Certa sexta-feira, Carolina pede à mãe para ficar com a pequena Maria durante o fim de semana e telefona ao dono da exclusiva propriedade na Comporta construída pelo avô, a reservar um bungalow para o fim de semana. Recebe as instruções de pagamento e telefona ao marido a confirmar a disponibilidade. A Chamada durou pouco mais que o tempo necessário para ele dizer um sim meio distante e nada animador. Ainda assim, Carolina enche-se de coragem, efectua o avultado pagamento, corre para casa, veste uma das suas ingerias especiais e um catsuit preto tão do agrado de Tomás e após preparar uma pequena mala com os elementos essenciais para dois dias românticos no Alentejo, abre uma garrafa de vinho e despeja um copo para acompanhar um livro enquanto aguarda a chegada do seu amado. Acorda às duas da manhã de sábado toda torcida no sofá e procura o marido pela casa, julgando que ele não a tinha acordado para não incomodar. Ao não encontrá-lo, procura no seu telemóvel uma explicação para o sucedido, mas nem uma sms nem uma chamada. Antes de lhe ligar, liga a pesquisa do telemóvel e procura o telemóvel do seu marido, verificando que se encontra na zona do Chiado e Cais do Sodré em vez de nas Avenidas Novas no seu escritório. Furiosa, telefona-lhe para apenas receber como resposta música de fundo ensurdecedora e grunhidos alcoolizados. Desce até ao carro e dirige-se para a zona o mais rápido que pode, descobrindo-o num dos bares mais reles da zona, com duas jovens seminuas a dançarem com ele, gravata enrolada na cabeça e os colegas de escritório a rirem às gargalhadas num privado próximo. Quase que o arrasta dali para fora e conduz furiosamente até à Comporta, numa vã tentativa de salvar o fim de semana. Efectua rapidamente o check-in enquanto ele ressona no banco do pendura e transporta-o grosseiramente para a cama, nem se preocupando em despi-lo. No dia seguinte ao pequeno almoço, estala a pior discussão de sempre. Ele nem se recordava da chamada dela a confirmar o fim de semana e apenas saiu para se divertir com os colegas. Não lhe tinha ligado porque eram quase dez da noite quando saiu da reunião e calculou que ela tivesse saído com as amigas, como fazia quase todas as sextas-feiras. Pediu desculpa e prometeu não repetir a asneira. As palavras dele caíram que nem uma bomba e Carolina apercebeu-se que aquele homem que aprendera a amar intensa e incondicionalmente já nem sequer se preocupava em dar-lhe uma satisfação quando saía com os amigos. Quando é que ela, sempre tão independente e no controlo das coisas, deixara que o seu casamento, de que tanto se orgulhava, caísse neste ninho de ratos? Não tinha sido isso que o seu pai lhe tinha ensinado, pois não? Recordou as sábias palavras. Primeiro os filhos, depois ela própria, depois sim os homens. Estava na hora de transformar radicalmente a sua vida. Ameaçou Tomás de que, à próxima, desaparecia da vida dele e nem sequer o deixava ver a filha e foi sozinha para a praia. Meia hora depois, Tomás chega com ar desconsolado à praia. Carolina deitada numa espreguiçadeira com um livro como companhia nem olha para ele enquanto se instala ao seu lado. Resolve naquele momento que está na hora de se sentir melhor, mais mulher. Como tal, retira a parte de cima do seu já reduzido bikini e caminha resoluta e bamboleante para o mar, sob o olhar guloso dos homens que estão por perto e o cenho recriminador das mulheres que os acompanham. Nem dez minutos depois Tomás está a seu lado, arrependido e manso como um cãozinho de colo. Ignora-o propositadamente e vai meter conversa com o nadador-salvador, um jovem de vinte anos no máximo com físico de porteiro de discoteca e olhar de ave de rapina para os seus seios cheios e redondos. Duas gargalhadas depois lá está novamente Tomás por perto, a tentar intrometer-se na conversa e a querer recolher o que é seu. É nessa altura que passa o jovem que vende Bolas de Berlim, pelo que com um sorriso sedutor para o nadador salvador afasta-se e caminha como se numa passerelle até ao jovem e pede uma bola de berlim com creme, estende uma nota de dez euros e trinca o doce com um gemido de prazer tão sedutor que faz com que o moço se atrapalhe e se perca no troco que está a fazer, espalhando moedas pela areia.

 

Tomás, fulo, recolhe ao bungalow, chama um táxi e vai para casa.

 

 

 

 

Texto da autoria de Mário Pereira, como seguimento da história que temos vindo a construir.