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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Experiências #15

10 julho 2010

Tomás fita melancolicamente a data gravada na aliança ao mesmo tempo que a acaricia suavemente. Nunca deixara de a usar, nem nunca tal lhe passara pela cabeça. Vai girando o anel dourado, já baço em algumas áreas, detendo-se a fixar o nome gravado no lado oposto à data: Carolina Holster.

Por um segundo, Tomás já não está sentado num banco de jardim, desfrutando da sua pausa da manhã: está no Alentejo, na Holster Village, num final de noite quente. O fotógrafo insistira para que saíssem da festa durante uns minutos a fim de os retratar sozinhos no amplo jardim, pelo que lhe fizeram a vontade acabando por demorar mais do que previram. De volta à festa, uma Carolina apressada puxava-o pela mão, numa corrida quase infantil. Que diabos! A festa não era deles? Não se podiam demorar um bocadinho mais? Tomás deixava-se arrastar pela esposa entusiasmada, enquanto a apreciava. Alguns caracóis mais rebeldes desprenderam-se do apanhado, roçando-lhe pelos ombros ou saltitando ao ritmo do seu passo ligeiro. O vestido de cetim branco deixa-lhe as costas desnudas, num V que tem tanto de encantador como de provocador, com o tecido da saia a ajustar-se perfeitamente às suas ancas, como se de uma segunda pele se tratasse, salientado as suas curvas e incitando à imaginação das pernas que se escondiam por baixo do tecido fino e ligeiramente travado. A mão livre puxava a saia do vestido para cima para dar mais liberdade à passada, expondo a pele perfeita e cálida dos tornozelos. Estava perfeita. Da tenda gigante chegavam os acordes de Chasing Cars, quando Tomás a puxou delicadamente para si, provocando um rodopio de caracóis ruivos e um riso infantil contagiante.

- Estás linda! – Declarou enquanto a abraçava pela cintura, acariciando a pele suave e exposta das suas costas.

- Estás a tornar-te lamechas, Tomás? – Gracejou Carolina ajeitando-lhe a gravata e puxando-o pela lapela do casaco.

Inspirou profundamente e quase que a conseguia sentir novamente, o calor do seu corpo no seu abraço, o seu cheiro floral e requintado, a maciez da sua pele. Forçou a mente a voltar à realidade, devolvendo-a à gaveta dos momentos felizes. Não teria novamente momentos daqueles ou pelo menos não tão cedo e não com Carolina. Definitivamente, não teria uma segunda oportunidade com ela. Ou teria? Conseguiria de alguma forma compensar o passado? Não o esquecendo para não voltar a cair no mesmo erro, mas compensando-o? Tornando o presente melhor, vivendo mais com a sua família a para ela? E se tentasse? Seria um longo caminho, sem dúvida, mas já fizera grande parte do percurso sozinho, reconstruindo-se e voltando aos poucos à vida normal. Porque não telefonar-lhe? Convida-la para um café ou para um pequeno passeio. Começar do zero, conhecendo-se novamente, sem pressas e sem as loucuras de anos idos.

Olhou de relance para o mostrador do relógio de pulso constando tinha quatro minutos para dar a pausa como terminada. Felizmente, a distância que o separava do supermercado era curta, somente a estrada que o separava do pequeno jardim urbano onde se encontrava. Caminhou até à passadeira aguardando o aval verde do semáforo. Um carro abrandou a marcha parando ao sinal vermelho. Dentro dele ecoava Chasing Cars e Tomás deu consigo a sorrir pela coincidência enquanto devolvia a aliança ao sítio onde pertencia. O peão iluminou-se de verde E Tomás caminhou confiante para o supermercado, com uma esperança que há muito não tinha e ignorando o calafria que lhe percorreu o corpo quando ouviu o grito agudo de uma ambulância apressada, segundos depois de ter atravessado a rua. 

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