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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Experiências #12

- Bom dia Sr. Ventura. Já ligou a máquina do café?

- Olá bom dia Carolina. Já sim. Pode ir tomar o seu cafézinho.

- Obrigado.

Carolina dirige-se à copa, tira um café e aguarda pacientemente que o estagiário lhe traga o o resumo das informações que lhe pediu.

- Então, que novidades tens para mim?

- Carolina, fico muito feliz por lhe dizer que não, o seu marido não a anda a trair. Esta semana, não fez uma única chamada que não fosse de trabalho ou para si. Nem para os pais dele telefonou. O telemóvel dele nunca esteve numa zona que não fosse a vossa casa ou o escritório. O histórico de internet não revela nenhum site esquisito e nem as pesquisas no Google por mulheres foram relevantes. Pesquisou oitenta e três vezes pela advogada do processo do clube de futebol e cento e vinte e nove vezes pela procuradora do Ministério Público do processo da lavagem de dinheiro.

- De certeza? Ele não me está a enganar?

- Carolina, andamos nisto há dois meses. Todos os dias passo horas intermináveis ao frio apenas para ver o seu marido a sair do escritório sozinho com um ar alheado, entrar no carro, conduzir até sua casa, depois vou para casa, faço o que me pediu, espio-o, acedo inclusivamente à webcam para o ver a trabalhar como um condenado. Sabia que, cada vez que ele pega numa caneta para tirar um apontamento, ele pega nas outras oito canetas que tem na secretária e arruma-as, uma por uma? São nove canetas. Todas de cores diferentes. E ele arruma-as todas da mesma maneira, sempre na mesma ordem. Sempre. E eu já sei a ordem das canetas todas. Azul, preta, vermelha, amarela, verde, laranja, rosa, castanha e corrector. Sempre na mesma ordem. Sempre com o bico virado para a impressora. Sabia que sempre que o seu marido liga o computador, ele abre a gaveta da direita, retira um bloco A4, escreve a data no campo superior direito com a caneta preta, pega nas nove canetas, arruma-as uma por uma, insere a password no computador, que é a data do vosso casamento e o nome da vossa filha em letras minuscúlas, entra no google, escreve o nome de alguém, tira uma nota com a caneta azul, pega nas nove canetas, arruma-as uma por uma…

- Já percebi, já percebi. O meu marido tem manias. Portanto, estás a garantir-me que o ele não anda a trair-me nem anda em chats nem em Tinders nem o raio que o parta.

- Nada Carolina. Nem uma aplicação, nem um Facebook, nem um Instagram, nem um Twitter. Na-da.

- Obrigado Sérgio. Muito obrigado. Não me esqueci do nosso acordo. Amanhã, supostamente, saio às três da tarde. Vou ficar a fazer horas extra no gabinete do Director de Programação, que vai estar toda a tarde em reuião com a Direcção de Conteúdos e a Direcção de Publicidade. A partir das três, podes ligar-me para confirmar se já lá estou para te mostrar o que é que eu faço no programa da Judite. Agora tenho de ir preparar o programa da manhã.

Carolina dirige-se à secretária e liga para Sofia, para mais uma vez desabafar que está enganada, mas a sua amiga, desde que se enrolou com o jogador de futebol, nunca mais lhe atendeu as chamadas durante o horário de expediente. Em desespero, faz uma coisa que não lhe é habitual. Liga para o seu marido. Ao fim de dois toques, uma voz entre o surpreendida e o assustada atende o telefone.

- Estou? Carolina? Está tudo bem? Algum problema com a Maria?

- Olá Tomás. Está tudo bem com a Maria, sim. Não te preocupes.

- Estás a ligar-me. Que se passa?

- Preciso de falar contigo.

- Isso é óbvio, para me estares a ligar durante o dia, em horário de trabalho. Tenho uma reunião importante com um cliente novo daqui a cinco minutos. Mas posso adiar um bocadinho, por ti. Que se passa?

- Não quero falar por telefone. Podemos almoçar hoje?

- Almoçar? Mas não estás a trabalhar na hora do almoço?

- Sim, mas saio mais cedo, vou ter contigo e vamos àquele restaurante japonês no Campo Pequeno. Às duas? Por favor?

- Er… Às duas? Pode ser, sim. Eu falo com o Paiva e almoço contigo. Deixa-me só bloquear a agenda, para a Milene não marcar nada. Uma hora chega? Duas? Mais que isso não consigo.

- Duas. Obrigada Tomás. Desculpa estar a ocupar tanto tempo num dia de trabalho.

- Carolina, estás a gozar certo? Tu és a minha mulher. Para ti arranjo sempre tempo.

- Obrigado. Amo-te!

- Eu também te amo, leoazinha do meu coração. Até logo, às duas.

Carolina desliga o telefone e tenta recordar-se da última vez que tinha, num dia de semana, falado tanto tempo seguido com o marido. E não se recorda. Com lágrimas nos olhos, levanta-se, vai à casa de banho e senta-se numa cabine a respirar fundo, a tentar não esborratar a maquilhagem com as lágrimas que teimosamente afloravam aos seus olhos verdes. Quem estaria mais maluco? Ele? Ou ela?

 

* * *

Texto original de Mário Pereira

 

 

Experiências #10

- Olá boa noite

- C… C… Carolina! Olá! Boa noite, por aqui?

- Sim, vim cá com uma amiga, mas não sei dela e não tenho com quem falar. Posso sentar-me?

- Sim… Acho que sim… Quer dizer, claro que sim, se acha que… Quer dizer, claro, quer ficar aqui no sofá, que é mais confortável?

- Estou bem, obrigado. Não precisa de ficar nervoso. Já percebi que é uma pessoa tímida, mas eu não mordo.

- É que… fui apanhado desprevenido, não esperava que viesse falar comigo…

- Porquê?

- Porque a Carolina não me conhece, não somos amigos…

- Vamos tratar disso então. Fala-me de ti.

- Eu? Então… Er… O que quer saber?

- O teu nome, para começar.

- Sérgio. O meu nome é Sérgio Ventura.

- Boa! Olá Sérgio. Carolina Carvalho. O trabalho como estagiário no Canal é o teu primeiro?

- Não. Mas é o primeiro na área. Sou licenciado em Audiovisuais e Multimédia, mas até agora só arranjei trabalho em call centers, como caixa de supermercado e em cafés. Nem na FNAC.

- Há quanto tempo estás no Canal?

- Três semanas.

- E o que queres fazer? Quais são as tuas ambições para este emprego?

- Tenho um contrato de seis meses. O que eu queria mesmo era, daqui a uns tempos, estar a fazer o mesmo que a Carolina com o programa da Judite. É exactamente esse o meu objectivo a curto prazo.

- E se eu te ajudar a chegar lá?

- C… Como? Como assim?

- Se eu te ensinar, pouco e pouco, a coordenar o programa da Judite? E um dia mais tarde, se abrir alguma vaga para esse programa ou para outro, já tens alguma experiência, não tens de aprender tudo do zero.

- Uau! Mas isso era óptimo. Claro que sim, oh meu Deus! O que é que eu tenho de fazer para isso acontecer?

- Podes começar por me dizer o que estás a beber para bebermos mais uma rodada

- Não, Carolina. Peço desculpa, mas eu é que faço questão de lhe pagar uma bebida. O que quer beber?

- Um whisky sem gelo e uma água com gás para acompanhar.

- Muito bem. Já venho. Muito obrigado Carolina, um dia que precise de algo, seja o que for, só se eu não puder é que não a ajudo.

Sérgio levanta-se, vai buscar as bebidas e passado poucos minutos está de volta.

- Ainda bem que disseste isso… Por acaso há algo que podes fazer por mim.

- Diga, Carolina.

- Preciso que sigas o meu marido.

- O… O… O quê?

- Preciso que sigas o meu marido. Ele é advogado e todos os dias chega  a casa quando a miúda já está a dormir e a maioria das vezes fica acordado a noite toda. Quero só ter a certeza de que ele não anda a trair-me. Assim, preciso que me confirmes isso. Achas que consegues?

- Sim, claro que consigo. É muito fácil. Hoje em dia já há aplicações no telemóvel para fazermos isso. Quer que lhe ensine?

- Não, não quero ser eu a fazê-lo. Não quero que ele pense que eu estou a desconfiar dele sem motivos. Se não quiseres, eu percebo. E a minha proposta mantém-se de pé. Eu continuo a ajudar-te. E temos de arranjar outra forma de me compensares…

- Não é preciso. Eu faço isso. Só preciso de algumas informações sobre ele.

- Tudo o que precisares. Sou a pessoa certa a quem pedir.

Então, o que eu vou precisar é…

 

Texto original de Mário Pereira

* * * 

 

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Experiências #9

Experiências #8

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Experiências #1

Experiências #8

6:30 da manhã

Carolina liga a água para o seu duche matinal. Nas últimas três semanas, dormiu sozinha pelo menos três vezes por semana. Tomás prepara um julgamento importante e passa as noites em frente ao computador, a verificar detalhes sobre a defesa que tem montada. Uma vez e outra, relê os seus apontamentos e os seus processos. E ela prepara o jantar, mantém a casa habitável, preocupa-se com Maria, faz as compras online e recebe-as ao fim da tarde. O seu vibrador cor de rosa já não a satisfaz o suficiente. Precisa de toque. Despe-se e entra no duche. A água quente acalma-lhe os ímpetos e afasta-lhe os pensamentos pecaminosos. Toma um duche ligeiramente mais longo que o habitual enquanto revê o seu dia. Reunião às 10 da manhã com Luís e a direcção do canal. Às 11, o programa da Judite como habitualmente até ao início da tarde. Almoço na cantina do canal. A tarde ainda está liberta.

Vai à gaveta da lingerie especial. Hoje precisa de se sentir feminina e confiante. Escolhe um conjunto que comprou especalmente para o aniversário de casamento. Entra no closet e analisa as suas opções. Discreta, de cinzento? Não, hoje não. Arrojada, de preto e encarnado? Não, levou para a última reunião. Sexymas profissional, com a blusa laranja e a saia travada. É isso. O decote não é escandaloso, mas permite sonhar. Um colar que chame a atenção para aquela zona. O pendente comprido. Isso mesmo. E agora um casaco… O blazer sem botões. E os sapatos altos pretos. Perfeito.

Desce à cozinha, toma um pequeno almoço leve, apanha o elevador para a cave, entra no carro e conduz calmamente pelas ruas ainda semi-desertas. Às 7:30 estaciona o carro no lugar habitual e percorre o caminho até à sua secretária. Liga o computador e vai à copa preparar um café. Lá, Liga a máquina. Ser a primeira a chegar ao escritório tem vantagens, a copa está limpa só para mim, pensa distraídamente. Nesse momento, entra o estagiário, que a cumprimenta com um sorriso envergonhado. Responde educadamente enquanto a bebida fumegante sai da máquina. Pelo canto do olho, repara que o estagiário olha furtivamente para ela e sorri interiormente. Sabe-lhe bem saber o efeito que tem nos homens. E o puto não é assim tão feio, pensa para com os seus botões. Baixa-se para colocar o copo de papel no lixo e repara que ele lhe olha pelo decote. Demora-se um microssegundo a mais e afasta-se com um sorriso na cara.

A reunião é um pequeno sucesso, pois consegue argumentar com clareza e no fim ouve elogios à sua capacidade de trabalho e apresentação. Luís não tirou os olhos do seu peito, o que significa que a roupa foi adequadamente escolhida. Ao almoço, revê o programa da Judite e encontra um pequeno ponto a corrigir no dia seguinte. Propõe a Judite a alteração ao início da tarde na sala de visionamento e recebe mais um elogio à proactividade. À saída, antes das quatro horas, cruza-se com o estagiário e oferece-lhe um sorriso e um “até amanhã à mesma hora” que provocando um rubor intenso na cara. No ginásio, percorre o circuito de cardio sem se preocupar com a habitual trupe de gorilas a mirar-lhe o rabo enquanto corre na passadeira e faz elíptica. Chega a casa ainda antes das 18h com a sua filha, recebe as compras do Continente, veste roupa confortável, prepara um jantar leve para as duas e senta-se no sofá a brincar com a filha.

Às nove da noite chega Tomás, distante como sempre. Dá-lhe um beijo rápido nos lábios, informa que já jantou e recolhe ao seu escritório. Carolina deita Maria, pega no telefone e liga para Sofia. A amiga atende meio chorosa, tinha tido uma discussão com  o Manel e ele tinha ido para casa dele. Volta a vestir-se e vai ter a casa de Sofia. Decidem ir a um bar para espairecer.

No bar, encontra um grupo de colegas de profissão e troca duas larachas com a pivô da noite, enquanto Sofia conversa animadamente com o ex-jogador de futebol que faz a secção desportiva. Cerca de uma hora depois, nem Sofia nem o futebolista estão no bar e ela fica sem saber muito bem o que fazer. Quando se dirige para a saída vê o estagiário numa mesa de canto agarrado ao telemóvel.

 

* * * 

Texto da autoria de Mário Pereira 

 

 

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Experiências #7

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Experiências #1

Experiências #7

Subitamente, o gabinete pareceu-lhe demasiado pequeno. Sentiu-se claustrofóbico, agoniado e o chão parecia movimentar-se debaixo dos pés. O diagnóstico era claro: estava louco. Precisaria de acompanhamento e ficaria dependente das drogas psiquiátricas para o resto da vida. Nunca mais seria a mesma pessoa, perderia o emprego, a mulher e... Maria! Céus, como haveriam de dizer à menina que o seu pai estava mentalmente doente? Talvez Carolina até o proibisse de a ver, para segurança da pequena. Ninguém queria malucos por perto.

A voz grave do Dr Henrique, trouxe-o de volta à realidade. Sem se dar conta, já hiperventilava e transpirava em bica.

- Tomás, isto não é um drama. É perfeitamente possível viver pacífica e tranquilamente com esta condição, mantendo o acompanhamento psicológico com o dr. Gonçalves, fazendo avaliações comigo, regularmente, e algumas sessões de psicoterapia também o vão ajudar a controlar melhor esses impulsos.

- Mas quais impulsos?! Eu não faço nada de anormal, não ando por aí tapado só com uma gabardine a fazer rondas a escolas! - a voz saía-lhe mais fraca que o habitual. transtornada por aquilo que ouvira.

- A primeira coisa que fez, quando aqui chegou, foi alinhar o pisa papéis com o porta canetas, colocando a branca, na mesma posição das restantes, enquanto as contava para si. E mesmo não me falando sobre isso, quase aposto que contou o número de quadros que tenho na parede atrás de mim e que o seu desalinho propositado o incomoda.

Tomás olhou para ele, atónito. Reparara de, facto, nas dezassete molduras que enfeitavam a parede. Cinco grandes exibindo diplomas vários, sete médias com desenhos infantis, certamente deixados por crianças que frequentavam o gabinete e cinco com fotografias de pessoas felizes e sorridentes. Estavam colocadas ao acaso, sem qualquer tipo de ordem e algumas estavam inclusivamente pendidas, como se fossem cair a qualquer instante. Várias vezes refreou o desejo de as colocar alinhadas e direitas, como deviam estar.

O médico observou a interrogação que os olhos do paciente espelhavam. Desde que entrara, sorridente e confiante, haviam passado pouco mais de 10 minutos, Tomás impacientou-se com a posição do pisa-papéis E com um gesto descontraído, como se afastasse um pouco de pó da secretária, alinhou-o rapidamente com a porta canetas. Pedira-lhe para ver a branca, a única cujo bico apontava para o tecto e, após um milésimo de segundo a avaliar o objecto, colocou-a de novo no lugar, tendo o cuidado de colocar o bico em direcção ao chão e exactamente a meio das restantes. Não raras vezes, esfregara as mãos com nervosismo, enquanto fitava de soslaio a parede de molduras que adornavam o consultório.

O transtorno obsessivo-compulsivo era relativamente comum embora o mais frequente fossem impulsos ligados à limpeza e higienização de superfície ou até mesmo em questões de segurança, como o verificar diversas vezes o desligar de uma tomada ou uma porta bem trancada, também era usual existirem estes extremos de busca da perfeição aparente.

Prescreveu a dosagem adequada de clomipramina numa das suas receitas que entregou a Tomás. Recomendou-lhe nova consulta dentro de 15 dias, mas sabia que o mais certo era não ele não comparecer.

 

* * * 

 

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Experiências #6

- Como é que eu lido com aquele sacana?

- Amiga, sei lá, tu é que o conheces, não eu!

- Será que eu é o conheço? Começo a duvidar…

- Não sejas parva, Carolina. Ainda me lembro quando há me disseste que ias fisgar o advogado bonitão do Presidente do… Qual era o clube mesmo?

- Não me lembro, não é importante. Onde é que queres chegar?

- Onde eu quero chegar? Tu é que decidiste que o ias conquistar, tu é que lhe deste a nega durante meses, enquanto ele praticamente beijava o chão que pisavas, tu é que decidiste como, quando e onde se iam encontrar, tu é que decidiste se iam chegar a vias de facto na primeira noite ou não… Tu é que decidiste tudo na vossa relação. Tu é que és o motor lá de casa. Sem ti a miúda andava vestida com roupa da Primark e ele andava de Citröen Saxo azul cueca, fatos da Giovanni Galli e gravatas da Feira de Carcavelos. Se tu saíres da equação, ele pura e simplesmente torna-se incapaz de fazer algo que não seja relacionado com o Direito. E mesmo isso duvido. Ele venera-te, amiga. E aposto que se lhe pedires o divórcio, ele fica tão de rastos que nem discute e te dá tudo o que quiseres. Só tens que andar para a frente com o pedido…

- Olha querida, tenho que ir, isto de ser a primeira pessoa a quem o Director de Comunicação quer dar trabalho é muito bom, mas tem esta desvantagens. Falamos depois tá? Beijinho e obrigado.

- Beijinho, leoa. Gosto muito de ti, sabias?

- Sei. E eu de ti.

Carolina desliga o telefone, compõe o sofisticado tailleur, confirma que o decote está decente e levanta-se em direcção ao gabinete de Luís. Durante o percurso, pensa na conversa que acabara de ter com Sofia. Já há algum tempo que se questionava sobre o seu casamento. Por um lado, agradava-lhe a segurança de ter alguém quando chegava a casa, cansada de um dia de trabalho. Por outro, agradava-lhe a ideia de recomeçar de novo, escolher novamente um homem, transformá-lo num animal na área em que ele estivesse e claro, pelo caminho divertir-se um pouco com ele. Entra no gabinete de Luís e sorri profissionalmente. Luís levanta o olhar do ecrã do portátil e mira-a de cima abaixo, parando mais tempo do que o que devia no seu peito. Luís era um bom homem, felizmente casado e sem escândalos que se lhe conhecessem, mas tinha uma mente demasiado aberta no que à sexualidade dizia respeito. Não tinha qualquer pejo em mirá-la com ar guloso, de comentar quando ela trazia um conjunto mais arrojado ou de fazer um piropo ao seu rabo ou ao seu peito nas alturas mais desproporcionadas. Inclusivamente, tinha na sua posse registos de conversas privadas no chat da estação em que a linguagem dele resvalou, sem qualquer pejo, para conversas sexuais explícitas. Numa delas, perguntava abertamente quantas vezes por semana mantinha relações com Tomás e quantos orgasmos costumava ter em média. Perguntas às quais Carolina não respondeu directamente mas que a fizeram sorrir, na altura. Sabia que Luís era o seu chefe, mas acima de tudo era um amigo de longa data desde os tempos da faculdade, colega de carteira do irmão mais velho no mesmo colégio em que também ela estudou, o seu padrinho de casamento. Além disso, também foi o homem com quem manteve relações sexuais ocasionais em noites de maior solidão e menor predisposição para a utilização do vibrador. Era a ele a quem telefonava a pedir companhia antes de conhecer Tomás. A relação que mantinha com ele era extremamente profissional dentro do escritório perante os colegas mas, a dois dentro do gabinete ou na rua, era o outro homem perto de quem se sentia completamente à vontade. Era aquele a quem era capaz de dizer as maiores barbaridades e manter as conversas que não tinha em casa.

- Bom dia. Desculpa se demorei Luís, estava a conversar com a Sofia e já sabes como ela é, primeiro que se cale é um sarilho.

- Não tem mal, Carolina. Não tem mal. Bom dia. A Sofia, continua junta com aquele cromo do Manel?

- Sim, estão a pensar em ter filhos em breve.

- Que pena, um corpo daqueles não merece uma gravidez. Vai estragar aquelas mamas todas.

- Desculpa Luís, hoje estou com imenso trabalho por causa da reportagem da empresa da TV Cabo. Chamaste-me para me dizer algo importante?

- Claro claro, desculpa. Temos que marcar uma reunião com a chefia do Canal. Vai haver uma reestruturação e estou a apostar em ti para seres a nova face do telejornal do almoço. Mas para isso, tens de ser devidamente apresentada e vais ter que mostrar todos os teus dotes, que eles olham para ti de lado por eu ser amigo do teu irmão e teu padrinho de casamento. Quando é que te dá jeito para a semana?

- A sério? Eu? Obrigado Luís. Muito obrigado pela confiança. Escolhe tu o dia e a hora, desde que seja antes das onze ou depois da uma da tarde, porque esse é o intervalo em que tou a coordenar o programa da Judite, como sabes.

- De nada. Sabes que gosto muito da tua maneira de trabalhar e acho que tens futuro no canal. E sei que há outros canais de olho em ti para o mesmo espaço. Assim adianto-me a eles. E tu ficas aqui ao pé de mim, que comigo é que tu tás bem. Vou então tratar de tudo e depois digo-te OK?

- OK. Até logo.

Carolina vira costas, sai do gabinete de Luís e entra na casa de banho. Por um lado, apetece-lhe dar pulos de alegria pela promoção iminente. Por outro, apetece-lhe chorar porque vai ter menos tempo para lidar com os seus problemas familiares. Entra num cubículo e senta-se a pensar… “E agora, que raio vou fazer à minha vida?”

 

* * *

Texto da autoria de Mário Pereira.

 

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Experiências #5

 

Quando é que a sua vida tinha ficado assim? Quando é que perdera o controlo da situação? Como é que se deixara afundar tanto? Questões que assomavam uma e outra vez à cabeça de Tomás, naquela manhã de segunda feira. Limitava-se a observar as pás da ventoinha que pairava no tecto, fazendo um esforço por não contar número de elos da corrente que o sustinha.

Não sabia quando começara. Talvez quando se empenhava demasiado no trabalho, verificando uma e outra vez todo o seu trabalho argumentativo, para que não existissem brechas que pusessem em causa o seu sucesso na sala de audiências. Ou quando saía em família e dava consigo a tentar descortinar o que pairava nas mentes dos que consigo se cruzavam, buscando olhares de interesse, fazendo leituras corporais que não existiam e divagando no obscuro da mente humana. Talvez quando se entretinha a arrumar a secretária numa tentativa de manter a ordem visível, por oposição ao caos que ia na sua cabeça, colocando as esferográficas todas no mesmo sentido e aparando o bico já afiado dos lápis. Talvez… Não valia a pena, fosse o que fosse que despoletara a situação, Tomás era única e exclusivamente o único culpado por deixar que o dominasse. Sabia que eram coisas da sua cabeça, sem sentido, sem fundamento, mas mesmo assim não se esforçara o suficiente por as inibir.

Quando o psicólogo clinico a que recorrera quase arrastado por Carolina depois de um ultimato amargo o viu, estranhou a sugestão para ser avaliado por um psiquiatra da sua confiança. Ainda ponderou não comparecer na consulta, não estava louco, estava apenas assoberbado em trabalho, stressado do corre-corre diário, enfim, era apenas mais uma entre tantas mentes cansadas e a precisar de férias. Não precisava do psiquiatra para nada, precisava de se meter num avião com destino a uma ilha paradísica e não fazer nenhum durante um mês. Era exactamente isso que o Dr. Henrique lhe diria e era exactamente isso que ia fazer, mal saísse do seu gabinete. Conversaria com a mulher, para que pudesse agilizar o trabalho na estação, trataria de passar todo o seu trabalho ao seu chefe, a miúda entraria entretanto em férias lectivas e teriam um mês sabático. Iria fazer-lhes bem e voltariam desta viagem ainda mais unidos e rejuvenescidos.

- Tomás Carvalho. – a voz rouca trouxe Tomás de volta à sala de espera e, entusiasmado com a perspectiva de umas férias a curto prazo, dirigiu-se para o gabinete luminoso onde um médico com ar experiente e algo austero aguardava a sua chegada.

Experiências #3

- Tu estás parvo, Tomás?! Onde raio foste tu buscar essa ideia estapafúrdia? - não era a primeira vez que isto acontecia, Carolina sentia-se num déja vu, era discussão recorrente e ultimamente, bastante frequente. Mas desta vez, Tomás fora longe demais. 

É claro que ela o tinha visto. Era impossível não reparar no homem soturno que seguia atrás deles, em plena baixa lisboeta. Como um cão que segue uma pista, mas não tem ordem de ataque, Tomás foi no encalço deles, até à porta do hotel, subindo calmamente pelas escadas até ao 13º piso, onde teria lugar a reunião que apresentaria Carolina como diretora de conteúdos do canal em que trabalhava. 

Apostava em como Tomás contara os degraus, enquanto os subia de par em par. Sentiu o olhar dele fixo, penetrante e a sua postura rígida quando se sentou num dos sofás do átrio. 

Mesmo na sala, com a porta fechada e com felicitações contanstes por parte dos colegas, Carolina sentia-lhe a tensão, o nervosismo. Queria muito ir lá fora falar com ele, com calma, mas sabia que não seria escutada e tampouco conseguiria manter os ânimos leves.

A discussão começou no carro, ainda ela não tinha se tinha sentado e metade da direção da estação tinha os olhos cravados na sua figura trémula e ligeiramente envorgonhada. Não era todos os dias que uma mulher daquele calibre tinha um marido raivoso à espera.

- Eu vi Carolina! Não tentes ludribiar-me! Ninguém me contou, eu vi! - apontou-lhe o indicador acusador, como se ela tivesse acabado de cometer um crime.

- Viste o quê, Tomás?! Eu a almoçar com o meu chefe, amigo de longa data e que só por acaso é nosso padrinho de casamento, a subir com ele para o hotel com decorreu a minha reunião de apresentação como diretora de conteúdos?! - gritou, enquanto sentia a fúria crescer, dominando-a. Estava farta daquilo.

- Eu vi como tu olhavas para ele! Como lhe sorrias! Como abanavas a anca enquanto caminhavas à frente dele. Tu estavas a provoca-lo deliberadamente! Tal como provocas qualquer homem que por ti passe. Ou pensas que não sei? Que não vejo as trocas de olhares lascivos, hã? Pensas que sou parvo? Ou queres fazer de mim parvo? - Berrou ensurdecedoramente, enquanto pisava um bocadinho mais o acelador. Estavam quase em casa.

Num gesto automático, Carolina fechou os olhos e esfregou as têmporas. Procurou dentro de si a pouca calma que lhe restava e, quando a encontrou, falou o mais suavemente possível:

- Tomás, o que tu viste foi um almoço entre amigos. Tu sabes que o Luís é um dos melhores amigos do meu avô, viu-me crescer... Que sentido faria andar metida com ele? Pela enésima vez Tomás: não houve, nem nunca vai haver, nada entre nós.

Tomás assentiu, num gesto mecânico e muito pouco convincente. A raiva mal contida era facilmente percebida pela força com que segurava a manete de mudanças.

- Tens que parar Tomás. Não podes continuar com essa ansiedade, com esse nervoso miudinho que dá cabo de ti e te faz ver coisas onde elas não existem. Tem sido recorrente Tomás, acusas-me à frente de estranhos, à frente da miúda e agora à frente dos meus chefes? Qual vai ser a próxima? Vais insultar-me no meio da rua? Apontar-me o dedo e chamar-me de puta no meio de um restaurante só porque cumprimentei o gerente? - deixou que as perguntas pairassem no ar, enquanto ele estacionava o carro à porta de casa, preparando-se para a pergunta fulcral:

- Tomás, diz-me a verdade: tu começaste a medicação, pois não? Tu foste à consulta, ouviste tudo o que o dr. Henrique te disse, aviaste a receita na farmácia, mas nunca chegaste a abrir a embalagem, pois não?

Não se ouviu resposta. Apenas o bater da porta do carro, com uma força que não lhe era habitual. Viu-o subir as escadas de acesso ao apartamento, mas deixou-se ficar sentada, no carro, tentando descortinar o que o silêncio que sussurava. Não, era óbvio que não Tomás não tinha começado o tratamento. Era óbvio que estava pior, que já pouco empenho dedicava ao trabalho, perdendo um caso importante recentemente e não se preocupando em se redimir por isso. As perseguições eram cada vez comuns e embora não fosse agressivo com gestos, era-o em palavras e na postura. O ambiente familiar era praticamente inexistente, havendo apenas um esforço por manter as aparências quando Maria estava presente e mesmo assim, já tinha presenciado duas ou três discussões mais amargas.

Daqui para a frente, caso Tomás continuasse a rejeitar ajuda médica, a situação iria piorar drasticamente. Pensou em Maria e na memória que não queria que a menina guardasse do pai. Pretendia que o visse sempre como o homem que em tempo fora: seguro de si, assertivo, confiante, não este poço de ansiedade e ciúme em que se tinha tornado. Respirou fundo, saiu do carro e seguiu para casa. Ignorou o barulho de loiça a partir que vinha da cozinha, bem como o caos que estava instalado na sala e dirigiu-se ao seu quarto, fazendo uma mala pequena para si e preparando de seguida outra para Maria.

Deixou uma nota em cima da mesa de cabeceira, acariciando ao de leve o rosto da fotografia de Tomás que lá estava.

Decidida, com o coração apertado e esforçando-se por segurar as lágrimas que teimavam em rolar cara abaixo, Carolina saiu de casa. Lá dentro, os gritos continuavam, a loiça estalava e um casamento terminava.

Experiências #2

O texto que segue é a continuação desta história e da autoria do Mário, que tem imenso jeito para a coisa, como poderão comprovar de seguida. 

 

 

 

Tomás era agora uma sombra do homem alto e bem parecido que fora nos seus trinta anos, quando conhecera Carolina. Engordara imenso e deixara crescer uma barba que se cuidada lhe daria o charme trendy da sociedade, mas a vontade de cuidar das suas pilosidades corporais desvanecera-se desde aquele fatídico dia.

Fora, em tempos, um advogado em rápida ascensão numa das maiores sociedades de advogados de Lisboa. Entrara ainda estagiário, acabado de sair da Universidade de Lisboa onde se licenciara com moderado brilhantismo, mas com uma mente sagaz e de raciocínio lógico tão rápido que um dos seus professores o referenciara a Paiva do Amaral, um dos mais brilhantes advogados de defesa do País. Paiva do Amaral esperara-o um dia à saída das aulas, fumando descontraídamente um cigarro e, a um sinal do professor, interpelara-o calmamente, convidando-o para um almoço informal. Fez-lhe algumas perguntas sobre situações de tribunal e sobre como resolveria determinados problemas que fossem colocados pela Acusação. Apanhado desprevenido, Tomás não dera parte fraca e demonstrara que as referências dadas pelo professor não eram desprovidas de conteúdo.

Uma vez na empresa, Tomás começara por, debaixo da asa do seu tutor, proceder ao estudo dos advogados de Acusação, observando-lhes os trejeitos, as hesitações, os bluffs quando os havia e, especialmente, aquele momento em que avançavam confiantes para a estocada final, quando provavam que o crime tinha realmente acontecido numa série de perguntas bem colocadas. Tornara-se, assim, uma espécie de profiler da sua sociedade de advogados, tornando mais fácil a Paiva do Amaral e restantes sócios aceitar novos processos com maior confiança, aumentando a percentagem de vitórias e, por consequência, melhorando o nome da sociedade junto do público em geral. Usara em seguida esse conhecimento adquirido para se tornar, também ele, um fantástico advogado de defesa, desmontando teorias de assassínio e esquemas de lavagem de dinheiro, reduzindo acusações de chantagem e coacção a escombros e tornando-se o advogado preferido de políticos alegadamente corruptos e presidentes de clubes de Futebol.

Conhecera Carolina precisamente na sequência de uma improvável vitória, ao dar uma entrevista a um canal privado. Chamaram-lhe a atenção os olhos verdes penetrantes e os cabelos cor de fogo provenientes do sangue Escocês do avô radicado no sul do país desde a década de 60 como construtor de paraísos para turistas. Terminada a entrevista, abordara-a com a confiança da vitória e convidara-a para jantar, apenas para ver a sua investida rejeitada por aquela jornalista imberbe com a mesma facilidade com que ele, advogado experiente, destruía os oponentes nas salas de tribunal. Continuou a tentar durante meses sair com ela por todos os meios até que um dia o seu telemóvel pessoal tocou e era ela, senhora jornalista Carolina Holster, a convidá-lo para um café depois do jantar, no bar que ela escolhera e à hora por ela pretendida. Nessa noite ele compareceu nervosamente antes da hora e quando ela chegou, sentiu-se como se ele estivesse a ser caçado e não o contrário.

A um namoro conturbado, seguiu-se um casamento numa das propriedades construídas pelo avô no meio do Alentejo, uma lua de mel num dos melhores resorts da Polinésia e Maria, não planeada mas muito desejada, menos de um ano depois. A vida sorria-lhes. Carolina singrava no canal privado e era já a pivô das notícias da hora do almoço, saindo a horas de estar com Maria depois do trabalho, levando-a a passeios e praias, museus e teatros. Tomás era já apontado como sócio para breve, faltando apenas que Paiva do Amaral convocasse reunião geral, coisa que normalmente acontecia uma vez por ano, antes do Natal.

 

 

O fatídico dia situa-se no início da Priomavera, quando Tomás sai cedo de uma sessão de tribunal, consulta a agenda familiar e verifica que Carolina assinalara uma ida ao Museu dos Coches com Maria até às dezoito horas. Sendo ainda três da tarde, dirigiu-se a Belém, entrou na fábrica dos Pastéis e, enquanto aguardava pacientemente a sua vez para comprar um pacote da deliciosa pastelaria, vislumbrou uma mecha de cabelos ruivos acompanhados por um homem vagamente familiar. Olhou melhor e reconheceu ambos. Carolina sorria sedutoramente para o vice-director de comunicação da estação onde trabalhava. O mesmo sorriso que lhe fizera na primeira noite, que terminou na casa dele, com ela por cima, delírio de posse e respiração funda, palavras doces sussurradas e algumas obscenidades.

Aguardou numa mesa que eles saíssem e seguiu-os a distância segura até os ver entrar no Altis e, já a caminho do elevador, ele colocar uma mão de posse a sul da cintura dela, num gesto rápido que lhe provocou uma gargalhada que ele, fora do hotel, não ouviu mas que reconheceu pelo volteio no cabelo que fez a seguir. Ela estava a traí-lo.