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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

O meu filho tem dois anos e não sabe as cores

Ou melhor, sabe, mas apenas em algumas situações que já explico. 

Caracolinho tem quase três anos. Fala pelos cotovelos, trepa, corre e salta. Atrapalha-se a contar até 5 e ainda confunde as cores, bem como a distinção entre o maior e menor - o relatório de avaliação que recebi no final de junho, diz que o miúdo tem dificuldades na matemática. 

Para começo de conversa: para que raio precisa um chavalo de dois anos e meio, na altura, de perceber matemática? Para que raio quero eu um relatório de avaliação pedagógica semestral? E porque raio está o mundo, a sociedade e o ensino tão preocupados com isso? 

À minha volta, vejo pais a quererem que os filhos saibam inglês desde cedo. Que contem até 1500 desde os 10 meses. Que sejam mais, melhores. Do que quem? Do que os próprios pais? Do que o vizinho do lado? Juro que não entendo esta obsessão pelos resultados, pelas metas curriculares impostas desde cedo.

Como disse, o meu filho não sabe, ainda, identificar todas as cores. Nem em português, nem em inglês, nem em jugoslavo.

Sabe, por exemplo, colher morangos, sabendo que só deve colher os vermelhos. Aproveitamos para contar os que trás na mão, mas se encrava no 3, não faço grande drama. Sabe que, na cerca dos animais, há dois gansos brancos, um coelho cinzento, uma cabra branca e uma cabra bebé, cinzenta também. Sabe que o Berlinde é castanho e que o Cusco é preto como a noite. É capaz descer as escadas, sem ajuda, e abre o portão sozinho, todas as manhãs (não, não tenho portão elétrico é tudo manual). Sabe que as ervas à volta das flores não devem lá estar, embora às vezes se engane e lhes arranque uma folha. Ou duas. Sabe bater ovos com a vara de arames e adora cortar massa para bolachas. Diz-vos de cor que "o papá é chato, a mamã é linda, o Mário é espectacular, a tia Sara é gorda e Cláudia vai levar tau-tau", lengalenga ensinada por senhora sua mãe, obviamente.

Não, não quero fale inglês, não quero que saiba contar até 20 e pouco me importa que não identifique ainda as cores.

Quero que corra, que brinque, que pule, que descubra e que explore. Quero que cresça feliz e não a achar que tem que saber tudo. tem muito tempo para aprender matemática e para desenvolver o gosto por línguas. Não agora e não aos dois anos e uns trocos.

 

 

 

Factos sobre as férias

Fiz mais praia agora, do que antes de ser mãe. Dizem que lhe faz bem, que é saudável, mas para mim chega vê-lo feliz a fugir das ondas e encher-se de areia.

Não é possível ler na praia, tampouco estar sossegada, o único tempo que sentei o rabinho na toalha foi à hora do lanche. Quando havia toalha, claro. Já que na maior parte do tempo, não passava de uma rodilha na areia.

As sestas sabiam-me pela vida. Foram vários os dias em que também eu passei pelas brasas e houve um dia em que fiquei só sentada, a ouvir o silêncio. Nesse dia, perguntei-me como seriam casas com mais de um miúdo.

Retomei as leituras, hábito perdido desde que as horas de almoço foram ocupadas com exercício físico. "O Quarto de Jack" foi o primeiro, uma boa aposta que me foi sugerida pela Magda, o guru dos livros, reforçada pela Alexandra e que me devolveu um prazer não esquecido, mas há muito anulado. Demorei três dias e já nem eu sabia que era capaz de ler tão rápido. Seguir-se-á o "Filho de Mil Homens", recomendado também por aquelas duas almas. Aceito mais sugestões.

Nem só de pão vive o homem, diz-nos a bíblia, e eu acrescento: nem só de praia se fazem as férias. Parques, parquezinhos, zoológicos, quintinhas pedagógicas, bibliotecas... Imensas coisas se podem fazer com miúdos - novinhos, não tenham medo, eles não mordem - que não incluem areia a saltar-vos em cima.

Por falar em areia, tenho imensa. Alguém sabe se aquilo dá para vender? Pensei em utilizar nas obras, mas já me disseram que não que tem de ser purificada e o caraças. Só a que tenho no carro (sim, tenho, ainda não aspirei) daria seguramente para uma arear uma divisão. Ou duas. Não juntei a das toalhas/brinquedos/mochila toda num bidão, mas aposto que daria outro tanto.

Não pus os pés no ginásio. Tampouco fiz qualquer exercício que não fosse: a) correr atrás do puto, b) ser pior do que o puto, o que implica o ponto a) novamente, c) passear, d) exercício de alongamentos aos globos oculares e de repouso ao cerebelo, leia-se dormir. Tudo o resto foi para as urtigas.

Não comi nem uma bola de berlim, na praia. Em compensação, comi mais gelados que no ano passado todo. Nada de grave.

Não estou morena. O que é estranho, porque fiz mais praia do que em qualquer outra altura, mas aceitável porque apenas o fiz duas/três horas por dia, de manhã, sempre que o tempo permitiu. Tenho uma ligeira corzinha, mas muitoooo ligeira, só os mais atentos darão conta.

Ainda agora regressei e já tenho saudades disto. E por aí? Já foram, ainda vão ou não querem ir? Contem tudo!

Mário report

Aos dois anos, o Mário é capaz de começar o dia a esfrangalhar os nervos de senhora sua mãe. Ou porque quer bolachas, ou porque não quer bolachas (ou porque quer as bolachas "que não pode"), ou porque quer a colher amarela, que afinal não é a azul ou só porque sim. 

Birras, birras, birras.... Pequeno Marocas é pró nelas. E tem jeito para a coisa o rapaz, não o posso negar. É dramático, impostor, persuasivo e chantagista. Tem tudo para singrar no mundo da manipulação. Problema: senhora sua mãe, que teima em fingir que não vê a dor do menino porque não quer comer a sopinha de espinafres ou as suas lágrimas de crocodilo porque também descobriu que lavar o cabelo não é fixe. Sou assim, uma insensível à dor humana e uma mãe do pior. A minha sorte é que ele ainda não se explica muito bem, senão já teria a CPCJ à perna. 

Mas bom, nem tudo é mau e as birras - apesar de constantes e diárias - não são o Mário. 

Aos dois anos, o Mário é bastante ágil na locomoção: corre, trepa, desce, sobe, cai, levanta, mas é um bocado preguiçoso a falar, atropelando-se entre popós, mamas e papás com uns monossílabos indecifráveis pelo caminho. 

Adora cantar e dançar, sendo o seu último single o "ia-ia-ôooooo", que é basicamente a única parte da música que consegue cantar. 

Sabe os sons de diversos animais da quinta e continua a adorar de coração a cabra e os gansos do meu senhorio. 

Tem uma adoração pelos cães, sobretudo desde que descobriu que eles gostam da sua sopa, mas não gosta que lhe retribuam o carinho em forma de lambidela. 

É queixinhas, não se pode tocar no menino, ainda que sem querer que vai a correr, "chorando" e apontando para o ferimento que lhe foi feito. É uma criança muito sensível. 

Gosta de outros bebés, sobretudo mais pequenos, de lhes fazer miminhos e de lhes limpar o nariz. 

Dá abraços e beijinhos espontâneos, caso esteja para aí virado, mas nunca diz "olá" ou "xau" quando lhe peço. Às vezes, deita a língua de fora a desconhecidos, na rua, o que me faz sentir que estou a fazer um péssimo trabalho no que toca à educação. 

Adora os brinquedos espalhados, não para lhes dar uso, mas pelo simples facto de gostar de esvaziar caixas. Já voltar a colocar tudo, é o cabo dos trabalhos. 

Continua a preferir os tupperwares aos blocos de construção e música "para adultos" é coisa que já não me lembro de ouvir em casa. Em compensação, estou pró na Galinha Pintadinha (sim, na brasuca) e sou capaz de fazer medlays dos Caricas. 

Odeia vestir-se e, do alto dos seus dois anos, crê ser possível ser-se feliz só com pijamas e meias fofas. Ainda não consegui explicar-lhe que a vida nem sempre é justa, mas a seu tempo lá chegaremos. 

Adora ralhar, mandar vir e dizer "ai!" de forma melindrada, que o faz parecer o mini humano mais fofo de sempre. 

É gozão, provocador e tem o sorriso mais safadola que já vi. Mas também é capaz de espalhar charme de forma irrepreensível, sobretudo com desconhecidas (os) e se houver batatas fritas na mesa. 

Não é perfeito, não me faz sentir perfeita, dá-me cabo do sistema nervoso central e das paredes lá de casa, mas é mais do que alguma vez poderia pedir.