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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Há coisas que me transcendem #2

Pessoas que culpam deuses pelo mal que vai no mundo.

 

Acredito no Ser Humano, no que toca a entidades religiosas (ou divinas) já lhes perdi a fé, e não pelas rasteiras da vida, mas porque acredito que a religião, quando assumida, abraçada e pregada na sua integra, nos tolda o pensamento e a razão. Arrisco mesmo dizer, e perdoem-me os mais crentes, que contribui para a tacanhez.

Ora, o que não falta por aí são crentes, amaldiçoando todos os dias o "seu" deus. E isso, de facto, faz-me alguma espécie.

Se lhes acontece a mais extraordinária das coisas, é porque deus assim quis.

Se lhes desaba o céu ou lhes tiram o chão seguro que pisam, é porque deus assim o desejou e os seus desígnios são escritos por linhas tortas, mas sempre certeiros.

Eh pá, não é assim um bocadinho antagónico que "o" deus que vos criou, vos deu tudo de bom que têm na vida, seja o "mesmo" deus que vos leva os pais, irmãos, por vezes filhos, para "junto" dele? Ou que vos castigue, colocando-vos nas filas para o centro de emprego anos a fio?

Não é deus descrito na bíblia como "misericordioso e clemente, (..) abundante em benevolência e em verdade?" (Êxodo 34:6) Não é deus sinónimo de amor? (1 João 4:8) Então como podem acreditar que, do alto da sua bondade em dar-vos tudo, de repente lhe dê os cinco minutos e vos arranque o coração e continue a remexer na ferida aberta? Não faz sentido.

Eu cá - e perdoem-me os mais crentes a comparação - não ia gostar nada que me atirassem tudo para cima das costas, o bom e o mau. A meu ver, e só a meu ver, isto é um bocadinho como a projecção (enquanto mecanismo de defesa do ego): as nossas virtudes, conquistas, vitórias, defeitos, perdas e derrotas, não são feitos nossos, mas sim de outra pessoa, neste caso deus(es).

 

Se abrirem no vosso facebook e procurarem uma daquelas páginas (infelizmente) comuns de doentes, essencialmente os oncológicos, que procuram ajuda financeira, ou simplesmente algum apoio moral, irão deparar-se com centenas, senão mesmo milhares, de comentários envolvendo e colocando os infortúnios nas mãos de deuses:

"A "Adelaide" recuperou após o 55º ciclo de quimioterapia!"

"Deus permitiu essa grande vitória" (pergunta para barulho: e se ela não se tivesse submetido ao tratamento?)

"A "Mafalda" será hoje operada."

"Está nas mãos de deus" ou ainda "Deus guie os médicos" ou "Deus, porque permites tanto sofrimento e doenças más? Não é justo..."

"O "Tadeu" não resistiu e perdeu a sua batalha contra o cancro."

"Deus tem mais um anjinho com ele", "Foi porque deus assim quis", "Deus sabe escolher entre os melhores da terra" e outros que tais.

 

Reparem, e peço desculpa me expressei de forma a que pensassem isso, eu não tenho nada contra quem encontra auxílio e apoio espiritual na religião, acredito até que, em certos casos, o acreditar num ser supremo que olha por nós, transmita algum positivismo e melhore o ânimo do paciente. O que não está certo, é atribuir todos os cenários ao mesmo responsável.

E isto é muito mais notório aquando o óbito. Aí, e sobretudo quanto menor for a idade do defunto, deus é praticamente crucificado. Isto porque, e muito mal, entendemos a morte como uma derrota, seja médica ou pessoal. A verdade, porém, é que - e por muito que nos custe - a morte é um processo natural, não tem idade definida e é inevitável quando o corpo atinge o seu limite de sobrevivência.

 

"Nascemos para morrer", não é o que reza o ditado? Então porque continuam a culpar deuses?

Vamos pensar nisto? Mas não muito, só um bocadinho, está bem?