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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Experiências #9

Deambulava pela rua, perdido em pensamentos, quando a viu. Havia passado um ano que saíra de casa e desde então nunca mais a vira. Visitava regularmente a filha, Maria, mas sempre em casa dos avós maternos e com aviso prévio de Carolina, com a data e hora a que poderia aparecer. Estava-lhe grato por isso, podia ter simplesmente alegado que não era uma boa influência para a menina, que era um louco que se recusava a aceitar ajuda médica, podia simplesmente pegar na miúda e decidir que ele nunca mais a via. Não fizera isso, nunca.

Fora difícil nos primeiros meses, não conseguiam sequer falar ao telefone sem descambarem em discussão. Essa fase durou apenas uma semana até Carolina nunca mais lhe atender uma chamada, limitando-se a enviar uma mensagem informativa semanas mais tarde: " A Maria vai passar o dia em casa dos meus pais, amanhã. Caso a queiras ver, podes aparecer das 15 às 17. " Eram sempre assim, curtas e distantes. Deu consigo diversas vezes a tentar ler nas entrelinhas, mas nunca havia, era sempre o mesmo texto, como se se limitasse a fazer copy-paste da mesma mensagem, uma e outra vez.

Há meses que não a via e agora, de repente, ali estava ela, sentada numa esplanada, acompanhada pelo seu chefe, Luís, beberricando um gin tónico elaborado e desfrutando de um final de tarde solarengo. Conversavam entre si, naquela cumplicidade que sempre tiveram e que só é possível quando há um determinado grau de intimidade. Tomás não conseguia perceber o teor da conversa, estava demasiado longe, mas nem tampouco isso lhe interessava. Naquele momento, deu-se ao prazer de a observar demoradamente, como o riso fazia com que os caracóis indomináveis do seu cabelo saltitassem num frenesim. Como o vestido preto, simples lhe realçava a brancura da tez e acentuava as suas já definidas curvas. Reparou num colar, que não o reconheceu e deduziu ser novo. um fio simples, dourado suficientemente comprido para que o pendente que sustinha pousar delicadamente abaixo da linha do decote. Se inspirasse fundo o suficiente, tinha a certeza que lhe conseguia sentir o cheiro perfumado. Ou talvez fosse só a sua memória a funcionar de forma demasiado realista.

O buzinar de um carro apressado, trouxe-o de volta à realidade, estava parado há demasiado tempo, enquanto a observava e rapidamente deixou de passar despercebido entre quem passava, para se tornar num tipo esquisito e com mau aspecto a engendrar alguma façanha. Olhou para a mesa da esplanada uma última vez, saboreando a luminosidade que o sol do final de dia lhe dava ao rosto, salientando ainda mais as suas pequenas sardas, num incrível jogo de constrastes. Inspirou profundamente, tentando descortinar o cheiro do seu perfume por entre o ar poluído de uma Lisboa em azafáma. Mecanicamente, virou costas àquela mesa e voltou à sua vida.

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