Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Experiências #5

 

Quando é que a sua vida tinha ficado assim? Quando é que perdera o controlo da situação? Como é que se deixara afundar tanto? Questões que assomavam uma e outra vez à cabeça de Tomás, naquela manhã de segunda feira. Limitava-se a observar as pás da ventoinha que pairava no tecto, fazendo um esforço por não contar número de elos da corrente que o sustinha.

Não sabia quando começara. Talvez quando se empenhava demasiado no trabalho, verificando uma e outra vez todo o seu trabalho argumentativo, para que não existissem brechas que pusessem em causa o seu sucesso na sala de audiências. Ou quando saía em família e dava consigo a tentar descortinar o que pairava nas mentes dos que consigo se cruzavam, buscando olhares de interesse, fazendo leituras corporais que não existiam e divagando no obscuro da mente humana. Talvez quando se entretinha a arrumar a secretária numa tentativa de manter a ordem visível, por oposição ao caos que ia na sua cabeça, colocando as esferográficas todas no mesmo sentido e aparando o bico já afiado dos lápis. Talvez… Não valia a pena, fosse o que fosse que despoletara a situação, Tomás era única e exclusivamente o único culpado por deixar que o dominasse. Sabia que eram coisas da sua cabeça, sem sentido, sem fundamento, mas mesmo assim não se esforçara o suficiente por as inibir.

Quando o psicólogo clinico a que recorrera quase arrastado por Carolina depois de um ultimato amargo o viu, estranhou a sugestão para ser avaliado por um psiquiatra da sua confiança. Ainda ponderou não comparecer na consulta, não estava louco, estava apenas assoberbado em trabalho, stressado do corre-corre diário, enfim, era apenas mais uma entre tantas mentes cansadas e a precisar de férias. Não precisava do psiquiatra para nada, precisava de se meter num avião com destino a uma ilha paradísica e não fazer nenhum durante um mês. Era exactamente isso que o Dr. Henrique lhe diria e era exactamente isso que ia fazer, mal saísse do seu gabinete. Conversaria com a mulher, para que pudesse agilizar o trabalho na estação, trataria de passar todo o seu trabalho ao seu chefe, a miúda entraria entretanto em férias lectivas e teriam um mês sabático. Iria fazer-lhes bem e voltariam desta viagem ainda mais unidos e rejuvenescidos.

- Tomás Carvalho. – a voz rouca trouxe Tomás de volta à sala de espera e, entusiasmado com a perspectiva de umas férias a curto prazo, dirigiu-se para o gabinete luminoso onde um médico com ar experiente e algo austero aguardava a sua chegada.

3 comentários

Comentar post