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A Caracol

Um blogue pseudo-humoristico-sarcástico. #soquenão #ésóparvo

Assinala-se hoje o dia mundial da luta contra o cancro

E eu continuo a perguntar: como raio vamos lutar contra algo que vive dentro nós? Algo que nós geramos? Como vamos asfixiar um tumor, se continuamos a respirar? Como o vamos matar à fome, se precisamos de nos manter bem nutridos? Como vamos aniquilá-lo sem ficarmos exangues? Como? Com tóxicos, com radiações? Mas como, se eles próprios geram novos cancros? Não há uma resposta efetiva, real, capaz de nos satisfazer. Não há cura, há um adiamento, um tratamento, algo que nos prolonga a existência. Mas não há, ainda, cura efetiva.

Dizemos muitas vezes que é uma luta desigual, mas não será uma luta entre semelhantes? Um mano a mano de células que partilham o mesmo habitat, o mesmo ADN, o mesmo sangue?

Siddharttha refere no seu brilhante "Imperador de todos os Males": Não será um cientista sozinho, fechado no seu laboratório, confinado ao seu microscópio, a descobrir a cura. Será uma equipa multidisciplinar. Serão oncologistas, investigadores, farmacêuticos, geneticistas, imunologistas, doentes, todos terão um papel importante nesta demanda. É preciso que hajam menos entraves aos investigadores, mas também é preciso que estejam dispostos a partilhar os louros, a saber escutar colegas de outras áreas, mas é preciso, acima de tudo, é muito preciso, que se veja o doente. Que não seja mais um, que não seja um cancro, um sarcoma ou uma leucemia. Que seja o Sr. António, a D.Augusta. Que tenha acompanhamento psicológico desde o princípio (não venham com merdas, é um balde de água gelada que nos cai pela cabeça abaixo, é preciso, sim), que haja uma equipa multidisciplinar, aqui incluo a medicina paliativa, que se fale com o doente, que se escute quem sofre, que não se lhe esconda nada, mas também não se lhe tire o tapete do chão. Que se permita que o doente tenha voz durante esta jornada. Que se permita ter quem mais se quer por perto, que se permita uma sobrevivência digna.

É pedir demais, eu sei, mas é esta luta que julgo ter que existir. E é nesta luta que TODOS podemos batalhar. Dando sangue. Dando plaquetas. Dando tempo. Escutando. Vendo. Partilhando. Abraçando. Chorando. Rindo. Beijando. Amando.

 

A propósito deste dia e em jeito de conclusão, não percam esta fantástica entrevista.